O Sábado Foi Estabelecido Por Causa Do Homem,
E Não O Homem Por Causa Do Sábado
de Álvaro César Pestana
[Este
texto foi extraido do livro "Provérbios
do Homem-Deus"
Copyright
© 2003 Editora Vida Cristã. Reproduzido com a devida autorização.]
Idolatria, ritualismo e outros erros semelhantes são
deturpações onde "tomou-se a forma e esqueceu-se a função". O
caso clássico deste problema de não agrupar bem o binômio "forma-função"
é o que ocorreu com a serpente de bronze na história de Israel. Em Números
21.4-9 vemo-la sendo levantada por Moisés, sob orientação divina, para
curar os que tinham fé obediente entre os israelitas. A forma da serpente
tinha a função de despertar e evidenciar a fé do povo. Quem tinha fé,
olhava para a serpente e a mordedura das cobras não lhes faria mal. Os incrédulos
e desobedientes, ao serem mordidos pelas mesmas serpentes, não obedeceriam a
ordem de fé e morreriam em grande desespero.
A história da serpente de bronze, contudo, não terminou
ali. Em 2 Reis 18.4 somos informados que o rei Ezequias destruiu esta mesma
serpente. O motivo da destruição foi o fato dos israelitas adorarem essa
imagem de bronze, como um ídolo, um talismã ou um deus. Eles tomaram a mesma
forma, de fato o mesmo objeto que Moisés tinha feito, mas mudaram
completamente a sua função. O provérbio de Jesus que vamos estudar observa
o mesmo problema, em outra situação, e ensina como solucioná-lo.
FORMA CERTA E FUNÇÃO ERRADA
O judaísmo do tempo de Jesus estava cheio de usos
errados das formas-funções estabelecidas no Velho Testamento. Um exemplo
disto pode ser visto no início do Sermão da Montanha (Mateus 5) ou no
discurso contra os líderes religiosos (Mateus 23).
O modo como a tradição judaica encarava o sábado também
era um exemplo desta distorção das formas e funções veterotestamentárias.
O sábado deveria servir para descanso e meditação, mas acabou sendo
transformado em um pesadelo de regulamentos e listas "pode e não-pode".
Jesus corrigiu este problema ensinando: "O sábado
foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado"
(Marcos 2.27). Este aforismo acaba com os conceitos errados sobre a função
do sábado.
Como era o costume de Jesus ao ensinar, ele volta à raiz
da instituição para poder compreendê-la melhor. O Senhor faz referência à
criação e pede que observemos a intenção do Criador ao estabelecer,
posteriormente, a instituição do repouso sabático.
Este provérbio foi construído num claro caso de
paralelismo antitético, onde as frases têm idéias que se contrapõem. Nos
provérbios construídos em paralelismo antitético, geralmente a última
frase da parelha recebe maior ênfase, mas este não é o caso aqui. Este provérbio
é uma exceção à regra geral (ver Introdução), pois enfatiza mais a idéia:
"o sábado foi feito por causa do homem". Esta quebra da regra geral
também se explica pelo desejo de Jesus de enfatizar uma frase anexa ao provérbio
onde ele disse: "de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado"
(Marcos 2.28). Assim o provérbio tem ênfase na primeira frase do par antitético
e também na frase anexa ao final.
O provérbio está em forma quiástica:
A "O sábado foi estabelecido
B por causa do homem,
B' e não o homem
A' por causa do sábado;
C de sorte que o Filho do homem
C' é senhor também do sábado" (Marcos 2.27)
A RAZÃO DA PERSEGUIÇÃO
Marcos 2.1-3.6 marca, neste evangelho, o início dos
conflitos de Jesus com os líderes religiosos dos judeus que geraram conspirações
(Marcos 3.6) que vão persistir (Marcos 12.13) e culminar na morte de Jesus
(Marcos 14.1).
Esta oposição "mortal" nasceu no coração
dos religiosos contemporâneos de Jesus pelo fato dele não concordar com a
interpretação "oficial" da Lei, ou seja, Jesus discordava da Tradição
Oral dos mestres judaicos em vários aspectos. Uma das questões sobre o sábado
(Marcos 2.23-28), onde ocorre o provérbio que estamos estudando encontra-se
exatamente dentro desta seção do evangelho.
INTERPRETAÇÃO OFICIAL CONTRA INTERPRETAÇÃO
ORIGINAL
O que Jesus e os discípulos estavam fazendo em Marcos
2.23 seria perfeitamente lícito aos olhos dos fariseus se não fosse
realizado no sábado (Deuteronômio 23.25). A Tradição Oral determinava
minuciosamente o que podia e não podia ser feito aos sábados. Havia até uma
lista de 39 verbos (trabalhos) que não podiam ser feitos naquele dia. Quatro
destes verbos (colher, debulhar, limpar e preparar) eram descrições do que
os discípulos estava fazendo ao comer.
Jesus combateu a tradição judaica muitas vezes,
especialmente as tradições com respeito ao sétimo dia. Há uma grande
quantidade de situações onde Jesus entrou em choque com os judeus nesta
questão (Marcos 3.1-6; Lucas 13.10-17; 14.1-6; João 5.1-9,16-17; 7.22;
9.1-14). A seita dos chamados essênios, por exemplo, proibia claramente que
um homem tirasse de uma cisterna ou fosso um animal que ali tivesse caído
(Documento de Damasco, 11.13-14). Jesus, e até mesmo a maioria dos judeus,
achava isto um absurdo (Mateus 12.11; Lucas 14.5, também 13.15).
O Mestre citou o exemplo de Davi em 1 Samuel 21.1-6 para
chamar atenção dos seus opositores ao fato que nem tudo pode ser resumido ou
explicado pela tradição rabínica. Davi comeu os pães da proposição (Levítico
24.5-9) numa situação de perigo de vida e não foi punido por isto. De fato,
este evento ocorreu num sábado, dia no qual os pães eram retirados do tabernáculo,
substituídos por outros e disponibilizados aos sacerdotes para seu alimento.
Tal fato não prova que os pães da proposição podiam ser comidos por
qualquer um; pelo contrário, a exceção prova a regra. Quebrar a lei de Deus
quando houver necessidade não é o que Jesus ensina aqui. O que fica provado
é que o modo rígido e legalista dos fariseus de interpretar a Lei não
explicava tudo (Marcos 2.25-26).
De fato, Davi só comeu os pães da proposição
impunemente por ter Deus concedido a ele esta prerrogativa naquele momento. De
uma forma similar, Jesus tem prerrogativas e autoridade superiores às da
Tradição e da própria Lei judaica. Jesus está dizendo: "Se Davi teve
autorização para quebrar o protocolo, muito mais o Senhor de Davi pode fazê-lo".
Mateus ainda menciona o caso dos sacerdotes judaicos que
trabalham no templo em pleno sábado (Mateus 12.5-7). Se o serviço no templo
exige a suspensão da lei do sábado para alguns, a obra de Jesus exige a
suspensão da mesma lei, pois Jesus é maior que o templo (Mateus 12.6). Se o
templo era maior que o sábado e se Jesus era maior que o templo, certamente
era maior que o sábado, um dos grandes preceitos da Lei.
Em tudo isto pode-se notar também que há prioridades
dentro das prescrições da Lei, e que há momentos em que um princípio maior
supera outras regras menores. A citação de Oséias 6.6 aponta nesta direção.
0 ritual não é maior que a fidelidade; a palavra do Cristo era maior que o
ritual do sábado.
A RAZÃO DA INSTITUIÇÃO DO SÁBADO
O provérbio "O sábado foi estabelecido (feito) por
causa do homem, e não o homem por causa do sábado" é peculiar a
Marcos, não sendo retomada por Mateus e Lucas. É difícil saber o motivo da
omissão da frase nestes dois evangelhos. O interesse pode ser simplesmente o
de resumir Marcos, gerando espaço para introduzir outros materiais. Este é o
costume de Mateus e Lucas. Outro motivo seria o de eliminar qualquer ambigüidade
ou mau uso da frase nas comunidades receptoras das obras, embora seja muito
questionável e difícil imaginar quais seriam estes maus usos do provérbio.
Mateus e Lucas, ao omitirem o provérbio que estamos
estudando, colocaram toda a ênfase do episódio na frase: "O Filho do
Homem é senhor do sábado" (Mateus 12.8 e Lucas 6.5). Lucas, inclusive,
por não mencionar (como faz Mateus) a questão do serviço do templo, faz com
que o leitor seja claramente induzido a entender a comparação que Jesus fez
de si mesmo com Davi. Observe que Jesus, como Davi, era o ungido de Deus, que
agia sob orientação divina e por causa disto tinha grande autoridade.
"O sábado foi feito por causa do homem, e não o
homem por causa do sábado" é uma clara alusão à criação. Jesus usa
o verbo na chamada voz passiva (`foi feito") para designar a ação de
Deus. Deus criou o homem no sexto dia e estabeleceu o sétimo como dia de
repouso.
A própria ordem da criação indica que o homem era o
alvo do benefício do repouso sabático. Contudo, o modo rabínico de
interpretar o Velho Pacto afastava o mandamento das intenções originais de
Deus. O sábado, que era para ser um dom, um presente e um dia de refrigério,
acabou sendo um dia de castigo, de opressão e de tensão devido à grande
carga de mandamentos associados com ele e dos inúmeros preceitos reguladores.
Esqueceram a função do sábado e ficaram apenas com a sua forma externa.
Este método de recorrer às origens e à criação para
resolver questões é característico de Jesus. Na questão do divórcio,
narrada em Marcos 10.2-12, enquanto todos buscavam alguma "interpretação"
que permitisse o divórcio, Jesus buscava a intenção original do Cria-dor na
instituição do primeiro casal (Marcos 12.6-9).
O SENHOR DO SÁBADO
Jesus arremata a questão dizendo: "De sorte que o
Filho do Homem é senhor também do sábado" (Marcos 2.28). No evangelho
de Marcos esta frase aparece como conclusão do texto, mas apresenta uma
verdade que é anterior à argumentação. De fato, o ensino que Jesus é o
Senhor do sábado e de tudo mais permite que ele diga como que o mandamento do
sábado deve ser obedecido. A razão para aceitar o ensino de Jesus é o fato
dele ser o Filho do Homem. Seu ensino não tem validade apenas por sua lógica
ou por sua veracidade, mas sobre-tudo por causa de sua autoridade. O modo de
Jesus interpretar a questão é importante, pois a norma é ele mesmo. A era
messiânica já havia começado, e o conhecimento de quem era o Messias traria
compreensão para saber cumprir a vontade de Deus.
APLICAÇÃO
Quatro lições para serem lembradas e desenvolvidas são:
1. Aprenda com Jesus a interpretar a Palavra de Deus.
O método de Jesus para interpretar a Bíblia é exemplo
para nós. Jesus buscava compreender a "intenção original do
Criador" ao ensinar um mandamento. O Sermão da Montanha está saturado
de exemplos deste tipo de interpretação. "Não adulterarás ", no
entender de Jesus, é uma recomendação à pureza de mente e não apenas a
proibição do ato ilícito (Mateus 5.27-28). Jesus está expondo as intenções
de Deus e não apenas a "letra" do mandamento. O caso de Marcos
10.2-12 é do mesmo tipo. A lição para nós é clara e aplicável a muitas
situações: é necessário cumprir não somente a forma exterior do
mandamento, mas também entender, respeitar e cumprir as intenções divinas
por trás daquela ordem. Procedendo assim, não iremos manter uma forma com a
função errada.
2. O sábado hoje.
Na Nova Aliança não temos de guardar o sábado
(Colossenses 2.16; Gálatas 4.10-11). Nove dos dez mandamentos estão
repetidos na Nova Aliança como mandamentos para a igreja: o mandamento do sábado
é a exceção. Ele foi abolido com a lei do Velho Testamento (Hebreus
8.6-13). Também não temos de guardar o domingo. Temos de nos reunir no
domingo para participar da ceia do Senhor, ofertar a Deus e ter comunhão com
os irmãos (Atos 20.7; 1 Coríntios 16.2;
Apocalipse 1.10), mas isso não implica em guardar esse
dia como dia de repouso. O sábado foi uma lei somente para os judeus (Êxodo
20.2; Deuteronômio 5.1-3). O sábado que aguardamos é o céu (Hebreus
4.9-11).
3. A bondade de Deus.
O provérbio "o sábado foi estabelecido por causa
do homem, e não o homem por causa do sábado"
não deve ser usado para exigir obediência ao descanso
do sábado; muito pelo contrário, ele só determina a intenção original do
estabelecimento do mandamento e a forma como devia ser praticado. Não fala
nada a respeito de sua validade para hoje ou não. Ensina, contudo, que mais
importante que o sábado em si mesmo é a bondade de Deus em estabelecer este
mandamento. Deus é tão bom que providenciou um momento do homem descansar e
contemplar o Criador. Jesus é o Senhor do sábado e de tudo mais: foi ele que
alterou este manda-mento, convidando-nos agora para o descanso celestial.
4. Jesus é o Senhor.
Esta é a confissão de fé fundamental da igreja de Deus
(1 Coríntios 12.3; Romanos 10.9-10). Seu senhorio é exercido sobre todo o
domínio das coisas espirituais. Ele tem toda autoridade (Mateus 28.18) e
direciona a compreensão das Escrituras conforme sua determinação. Jesus
governa sobre todas as coisas do Pai.