Devo Aprender A Como Interpretar A Bíblia?
(Continuação) de D. A. Carson

Princípio X
Tome Cuidado Como Você Aplica Narrativas

Hoje em dia a maioria de nós já estamos familiarizados com vozes “pós-modernas” que advogam significados abertos. Em outras palavras, isso quer dizer significados que, no final das contas, você ou sua comunidade interpretativa “descobre”. Isso não é significado que necessariamente está no texto, e nem necessariamente o que o autor original quis dizer.

Não é nenhuma surpresa que quando estas vozes pós-modernas se voltam para a Bíblia, elas com freqüência são atraídas pelas porções narrativas, uma vez que narrativas geralmente são mais abertas a diversas interpretações do que um discurso. Admitamos, estas porções narrativas são comumente tiradas de seus próprios contextos nos livros nos quais elas foram encaixadas, e são postas isoladamente.

Sem as limitações contextuais, as possibilidades interpretativas parecem se multiplicar, o que é, claro, o que os pós-modernos querem. As narrativas têm outras virtudes: são evocativas, afetivas, imaginativas, memoráveis. Entretanto, a menos que se tome cuidado, as narrativas são mais facilmente mal interpretadas do que passagens discursivas.

De fato, narrativas curtas não só devem ser interpretadas dentro da estrutura do livro na qual estas estão encaixadas, mas dentro do próprio corpo literário, e finalmente dentro do cânon. Considere, por exemplo, Gênesis 39, o relato dos primeiros anos de José no Egito. Uma pessoa pode ler a narrativa e extrair dela excelentes lições em como resistir a tentações (p.ex. José refere-se ao pecado sexual para qual ele foi seduzido pela esposa de Potifar como “um pecado contra Deus”; não era apenas uma mera fraqueza ou defeito. Ele evita a companhia da mulher; diante da cantada, ele considera sua pureza mais importante para ele do que seu futuro).

Porém, uma leitura cuidadosa dos versículos de abertura e fechamento do capítulo também mostram que um dos pontos mais importantes da narrativa é que Deus está com José e o abençoa mesmo no meio das circunstâncias mais amedrontadoras: nem a presença de Deus, nem a bênção de Deus estão restritas a um estilo de vida feliz.

Agora, leia o capítulo no contexto da narrativa precedente: note que Judá se torna o contraste de José. Judá foi tentado em circunstâncias de conforto e abundância, e sucumbe ao incesto; José foi tentando em circunstâncias de escravidão e injustiça, e manteve sua integridade.

Agora, leia o mesmo capítulo dentro do contexto do livro de Gênesis. A integridade de José está atrelada com o meio pelo qual Deus providencialmente provê alívio da fome, não somente para milhares, incontáveis pessoas, mas para o povo da aliança de Deus, em particular.

Agora, leia dentro do contexto do Pentateuco. A narrativa é parte da explicação de como o povo de Deus termina no Egito, o qual levou ao Êxodo. Os ossos de José são levados quando o povo deixa o Egito.

Amplie o horizonte agora para encaixar-se no cânon como um todo: de repente a fidelidade de José em questões pequenas é parte da sabedoria providencial que preservou o povo de Deus, levou ao êxodo que serviu como um tipo de uma libertação ainda maior, e finalmente que chegou ao filho distante de Judá, Davi, e por sua vez a um filho seu mais distante ainda: Jesus!

Então, embora possa ser mais apropriado aplicar Gênesis 39 simplesmente como um relato moralizador que nos conta como lidar com a tentação, a perspectiva que se ganha ao considerar um contexto mais amplo revela múltiplas vantagens de se ter mais conexões e significados que leitores (e pregadores) atentos não devem ignorar.




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O Dr. D. A. Carson ensina Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School e tem mais de vinte livros do seu próprio punho, entre as quais em português temos: "Comentário do Evangelho de João" da Shedd Publicações e "Os Perigos da Interpretação Bíblica" e "Introdução ao Novo Testamento" (co-editado com Douglas Moo e Leon Morris), ambos da Editora Vida Nova.


25/05/2010