DEVO APRENDER A COMO INTERPRETAR A BÍBLIA?
(Continuação)

de D. A. Carson

Princípio IX
Muitos Mandamentos São Limitados Pelo Contexto Pastoral.

Por exemplo, Jesus sem ambigüidade insiste: “Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; (...) Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mat 5:34-36).

Entretanto, encontramos Paulo indo bem além de um simples “Sim” ou “Não” (e.g. Rom 9:1; 2Cor 11:10; Gal 1:20). De fato, Deus mesmo se coloca sob juramento (Heb 6:17-18). Pessoas que gostam de pedir não se maravilhariam com este tipo de ensinamento?

Mesmo assim a linguagem em particular da proibição de Jesus, sem mencionar o paralelo mais longo em Mat 23:16-22, mostra que o que Jesus estava pensando era o uso de juramentos sofisticados que se tornaram em ocasião para uma mentira evasiva. Parecido um pouco com um garotinho de escola que conta uma grande mentira com seus dedos cruzados pelas costas, como se este mecanismo fosse exonerá-lo da obrigação de contar a verdade.

Algumas vezes, a melhor coisa é ir até o cerne da questão: simplesmente conte a verdade, e que o seu “Sim” seja “Sim” e o seu “Não” seja “Não”. Em outras palavras, o contexto pastoral é vital. Em contraste, o contexto de Heb 6-7 mostra que quando Deus se coloca sob juramento, não é porque do contrário ele mentiria, mas por duas razões: primeiro, manter o padrão tipológico de um sacerdócio estabelecido por juramento, e segundo, oferecer uma confirmação especial à fé fraca dos seres humanos, que do contrário possam não estar um tanto quanto inclinados a levar a sério as maravilhosas promessas de Deus.

Há muitos exemplos nas Escrituras sobre a importância do contexto pastoral. Paulo pôde dizer que é bom para o homem não tocar uma mulher (1Cor 7:1—a NVI: “não casar” é uma tentativa sem base de suavizar o Grego). Mas, ele continua, há também boas razões para casar, e finalmente concluiu que tanto o celibato, quanto o casamento são dons de Deus, charismata (1Cor 7:7, o qual eu creio nos faz todos nos carismáticos).

Não requer muito lendo entre as linhas para perceber que a igreja em Corinto incluía alguns que eram dados ao asceticismo, e outros em perigo de promiscuidade (cf. 1Cor 6:12-20). Há uma sensibilidade pastoral ao argumento de Paulo “Sim, mas...”, um argumento que ele usa mais de uma vez em sua carta (e.g. 1Cor 14:18-19). Em outras palavras, há limitações pastorais ao curso advogado, limitações deixadas claras pelo contexto.

Da mesma forma, o que Paulo diz a fim de encorajar a confiança cristã aos romanos no fim do capítulo 8 não é o que ele diz aos coríntios em 2Cor 13:5. Quais elementos particulares, autênticos, com nuanças, e até mesmo de uma doutrina complexa que precisa ser enfatizada em uma certa época será determinada, em parte, pelo diagnóstico pastoral de enfermidades predominantes atuais.


Veja também "Tome Cuidado com Comparações e Analogias, Considerando Sempre o Contexto Imediato"

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O Dr. D. A. Carson ensina Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School e tem mais de vinte livros do seu próprio punho, entre as quais em português temos: "Comentário do Evangelho de João" da Shedd Publicações e "Os Perigos da Interpretação Bíblica" e "Introdução ao Novo Testamento" (co-editado com Douglas Moo e Leon Morris), ambos da Editora Vida Nova.


25/05/2010